O Nutricionista

Pedi a um amigo referências sobre o nutricionista com quem se consultava, do qual falava maravilhas e a quem atribuía, juntamente com a regular prática de exercícios de musculação, a responsabilidade pela esbelta e invejável silhueta que exibia.
Fernando Cravos

Pedi a um amigo referências sobre o nutricionista com quem se consultava, do qual falava maravilhas e a quem atribuía, juntamente com a regular prática de exercícios de musculação, a responsabilidade pela esbelta e invejável silhueta que exibia.

Cheguei ao consultório e, antes de ser chamado, ainda na recepção, paguei o valor da consulta, algo em torno de R$ 800,00, a preços de hoje. A julgar pela suposta competência do cara, até que parecia barato.

Enquanto aguardava comecei a folhear umas publicações e a ver alguns cartões de visita, colocados estrategicamente à vista dos pacientes, com ofertas de serviços profissionais em diversas áreas terapêuticas, tais como: cromoterapia, homeopatia, florais de Bach, quiropraxia, acupuntura e por aí vai. Comecei a me assustar.

Entrei no consultório enviesado com o que li na sala de espera e me sentei já pensando na desculpa que daria para sair vazado, o mais rapidamente possível, caso ele resolvesse enveredar por caminhos semelhantes aos que são trilhados pela turma das publicações e dos cartões de visita.

Nutricionista

Ele então começa com perguntas sobre meus hábitos alimentares, exercícios, fumo, álcool e, observando o sobe e desce da minha perna na cadeira faz a observação:

– Ansioso, hein?

Não faço comentário algum.

Em seguida manda que eu abra a boca e lhe mostre minha língua, pedindo que eu mantivesse aquela posição, similar à do Einstein naquela célebre foto, pelo tempo que ele julgasse necessário para concluir a sua avaliação, e, apontando o dedo indicador e fazendo anotações, começa a mandar diagnósticos em sequência, sugerindo que fígado, rins, intestino e outros órgãos meus, estariam com certo comprometimento, segundo os achados de seu exame visual ao meu órgão de deglutição, paladar e fala. Perguntei como ele diagnostica seus pacientes apenas observando suas línguas, e ele limitou-se a responder que utilizava técnicas tradicionais de medicina chinesa.

A segurança que a sua expressão facial e o seu jeito de se comunicar transmitiam, me fizeram entender o seu poder de persuasão e o fascínio que exerce sobre as pessoas predispostas a valorizar tudo o que é explicado com ares de coerência e que se distancie dos conceitos e práticas da medicina convencional.

A profusão de perguntas, aparentemente não ligadas ao principal objetivo de quem o procura, passa a seus pacientes a ilusão de estarem consultando um nutricionista que tem conhecimentos muito além da função para a qual se preparou e se porta como se médico fosse.

Os benefícios de perda de peso e melhora de bem-estar, que eventualmente obtêm com dieta de déficit calórico e por efeito placebo de uma de suas técnicas ou receitas, reforçam a confiança dos clientes.

É assim que praticantes de pseudoterapias conquistam e fidelizam pacientes de boa-fé, mas que são pouco questionadores, e estão acostumados a consultas com médicos objetivos que falam pouco e que parecem não estar dando a atenção que esperam e gostariam de receber.

Saem do consultório dizendo coisas do tipo: ele é ótimo, pergunta tudo, é muito atencioso e carinhoso, a gente se sente muito bem nas consultas, e vão recomendando o sujeito à família e aos amigos, e assim a quantidade de clientes aumenta, principalmente se entre estes figurar uma celebridade. Aliás, não há nada mais poderoso para espalhar crendices e charlatanices do que celebridade.

Voltando à minha consulta, eu já começava a pensar em disfarçar e mandar uma mensagem a alguém pedindo que me ligasse para eu dar uma desculpa qualquer e cair fora, quando ele olha para o meu braço e sai com essa:

— Você sempre foi verde assim?

— VERDE? Você está dizendo que eu sou verde?

— Não. É que às vezes a tonalidade da pele pode indicar muita coisa.

Eu não queria parecer grosseiro, mas estava ficando muito incomodado, especialmente com essa referência à minha suposta coloração clorofila. Estava sem saber o que fazer, até que ele perguntou:

— Posso fazer uma acupuntura em você?

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Perdi de vez a paciência e respondi:

— Em hipótese alguma! Eu não sou adepto de práticas não reconhecidas pela ciência e, muito menos, estou disposto a me permitir ser espetado e furado aqui.

Ele pegou uma caixa em uma prateleira próxima à mesa, abriu-a, mostrou-me o conteúdo e prosseguiu dizendo:

— Não. Não é com agulha, vou implantar estas sementes na sua orelha, trata-se de acupuntura auricular.

— Não, desculpe, mas não sou adepto de terapias alternativas.

— Ah, ok, se o paciente não quer não tem problema, mas qual o motivo da sua birra contra acupuntura.

— Já lhe disse; eu prefiro terapias respaldadas pela ciência e esse não me parece ser o caso dessa técnica de implantar sementinhas na orelha das pessoas. Não tenho notícia de médicos que recomendem esta prática.

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Imagem de Tua Saúde. Visitando o site observe que as referências são feitas a “possíveis benefícios” ou “acredita-se que” ou, ainda “auriculoterapia normalmente é indicada como de forma complementar ao tratamento médico convencional e, por isso, não deve substituir os remédios prescritos pelo médico“. Atente, principalmente, para os alertas sobre a necessidade de estudos que comprovem a real eficácia desse método terapêutico, em todas as doenças e condições para as quais é indicado.

— Entendo você e respeito, mas sabe por que eles não recomendam?

— Não tenho ideia.

Respondeu-me levantando o tom de voz:

— Porque não sabem nada! Não têm conhecimento para isso.

— É a sua opinião e eu também devo respeitá-la. Encerramos então?

Achei que aquela leve e respeitosa discussão era a senha para eu me mandar e dar por encerrada a consulta, mas ele ainda tentou me receitar uns medicamentos, segundo ele, naturais e sem feitos colaterais, que me ajudariam na digestão e perda de peso.

medicamentos-remédios homeopáticos

Recusei.

Após perceber que não rolaria nenhum tipo de pajelança comigo, resolveu me prescrever uma dieta.

Dieta

Fez perguntas adicionais, relativas à quantidade e à frequência do consumo de bebida alcoólica, quantidade de água consumida diariamente, entre outras, e após cada resposta me dava ordens do tipo:

— Está bebendo 1 litro de água por dia? Não; eu quero 2,5l.

— Ok, pode deixar.

— E quanto a bebidas alcóolicas: eu quero zero. Noventa dias sem beber.

— Ahan.

E assim, felizmente, terminamos, com ele marcando o retorno para três meses.

Recebi uma chuva de e-mails promocionais até cancelar os envios, e não preciso ressaltar que não segui a dieta e nenhuma das recomendações.

Encontrei, dias depois, o amigo que me fez a indicação e antes dos usuais como vai e tudo bem, veio a pergunta:

— E aí? Foi no cara?

— Fui.

— Gostou? Ele é sensacional, não é?

Pensei duas vezes antes de responder, mas a amizade falou mais alto:

— É. Gostei muito da consulta. E o melhor de tudo foi ter descoberto que eu faço fotossíntese.