As animadoras observações das amigas

Estar casado com alguém muito mais jovem é algo que exige preparo psicológico e emocional, além do físico, é claro, e às vezes expõe o indivíduo a situações, no mínimo, curiosas.
Fernando Cravos

Diferença de idade no relacionamento

Relacionamentos em que haja considerável diferença de idade entre os membros do casal inevitavelmente, em alguns momentos, resultam em situações intrigantes, para dizer o mínimo.”

Podemos dizer que ao longo de sete anos, a despeito da nossa diferença de idade, temos conseguido administrar com tranquilidade o nosso dia a dia e as nossas eventuais divergências, mas temos que admitir que o convívio social, embora longe de ser considerado desafiador, nos expõe a certos embaraços algumas vezes interessantes e até divertidos.

Em nossos encontros com amigos, principalmente nas primeiras ocasiões em que são feitas as devidas apresentações, a diferença de idade, além de fisicamente evidente, é ressaltada, na maioria das vezes involuntariamente, em comentários, situações ou opiniões, emitidas inocentemente, mas que revelam algum tipo sutil de preconceito ou de juízo de valor.

Nunca fomos ingênuos a ponto de ficar surpresos. Desde que começamos a namorar, sabíamos que iríamos enfrentar situações desse tipo.

Na verdade, na maioria das vezes, até nos divertimos nesses momentos, e consideramos absolutamente compreensível o fato de que alguns não entendam e façam os seus julgamentos (muitas vezes até, provavelmente, bem pertinentes) sobre as nossas vidas, sobre o passado e sobre o futuro do nosso relacionamento.

Nas raras vezes em que comentários inconvenientes ocorreram, não produziram qualquer descontentamento nem necessidade de pedidos de desculpas ou reclamações, de qualquer das partes.

O interessante é que um dos mais inadequados comentários que eu ouvi partiu, imaginem de quem? Vou contar.

Ao descobrir, surpresa, que eu já tinha 60 anos, Renata, minha mulher, me fez um pedido:

— Você não conta para ninguém, tá? Diz que tem 59.

Eu, perplexo:

— Claro que não farei isso. Não preciso sair alardeando, mas se me perguntarem eu falarei a verdade.

— Ah, ok, eu estava só brincando.

Acho que imaginava que não ficaríamos juntos por mais de um ano, pois é claro que acontecendo isso as pessoas saberiam que ela estava com um cara de 60 anos ou mais.

Depois admitiu que, no início, ficou, sim, um pouco constrangida, mas foi se acostumando e em pouco tempo o fato deixou de ser relevante para ela que fazia questão de falar de nós e de me apresentar aos amigos, sem preocupações com a diferença. Hoje lembramos do fato às gargalhadas.

Mas o interessante é que se a própria Renata se sentiu em algum momento participante de uma relação pouco usual, é claro que muitos iriam pensar assim também, e isso é mais uma razão para que aceitemos eventuais julgamentos que não nos agradem.

Veja também > O tempo, a morte e a medicina

Um comentário “imprescindível”

Quando nos manifestamos pela primeira vez a um grupo de amigos sobre a possibilidade de termos filhos, uma amiga da Renata me disse para não pensar que seria fácil porque na minha idade a fertilidade masculina sofre redução e que há, ainda, os riscos de gerar filhos com problemas. Não retruquei, mas fiquei um pouco incomodado, embora preferindo não acreditar que tenha havido deliberada intenção de me aborrecer.

Eu já vinha pesquisando sobre o assunto, obtendo suficientes informações tranquilizadoras e contrárias ao que ela havia dito, embora não possa negar que essa questão é polêmica até nos meios científicos e sempre gera alguma preocupação. O comentário, entretanto, por mais que ela entendesse ser oportuno e carregado de sensatez, não me pareceu dotado de tamanha imprescindibilidade, a ponto de não poder ter sido omitido, já que estávamos ali felizes a falar do que, até aquele momento, se tratava apenas de uma possibilidade.

Setenta já está bom; não está, amiga?

Certa vez, em visita a um casal, a amiga da Renata, de 37 anos, disse que já se considerava velha.

Simulei pigarros e tossidas, mas não adiantou; ela prosseguiu dizendo que, já não esperava por grandes transformações e mudanças na vida profissional e privada.

Disse essa frase diante de mim, um sujeito 27 anos mais velho, que dentre as mudanças vividas, a maioria após os 37 anos, estava naquele momento experimentando a mais incrível de todas, ao lado da sua amiga, minha mulher, grávida da primeira filha; a sexta minha.

Limitei-me a dizer que ela estava sendo precipitada e que há uma infinidade de evidências para se acreditar que muitas transformações podem vir pela frente, em qualquer idade, especialmente aos 37 anos. Não creio que tenha conseguido sensibilizá-la.

Esta mesma amiga disse à Renata, em outra oportunidade, que não se sentia com energia para viver muitos anos e que se daria por realizada se chegasse aos setenta, finalizando com uma pergunta: “Setenta está bom demais, não está, amiga?” Renata respondeu dizendo que não considerava 70 anos o bastante, pois tem uma avó, entrando na casa dos 90, cheia de vida, energia e planos, e ela, Renata, está casada com um sujeito, pai da sua filha, o qual, por motivos óbvios, também acredita que 70 anos é muito pouco.

Veja depois > Paternidade depois dos 60: sobre um comentário que recebi

Ele não vai jogar bola com o filho

Tempos depois, outra amiga disse à Renata que seria uma loucura ter filhos com um homem da minha idade porque, dentre outros motivos, eu não iria jogar bola com o meu filho. Renata respondeu:

— mas ele joga com os netos;

e a amiga retrucou:

— joga agora; quero ver daqui a quinze anos.

A propósito: já se passaram sete anos depois dessa conversa e eu ainda bato uma bolinha. Faltam apenas oito para que ela seja definitivamente desmentida.

O conselho do meu amigo

Não são somente as “amigas” que fazem esses tipos de comentários. Eu estava com 60 anos e havia ficado viúvo há quase três, e não conseguia me ver sozinho para sempre. Ao dizer isso a um amigo em um almoço ouvi a afirmação de que eu estava maluco, pensando em me casar àquela altura, e me aconselhou a não fazer uma tolice dessas em hipótese alguma.

Não sei se a opinião dele tinha a ver com a minha intenção de me casar novamente ou se estava falando isso porque sabia que eu já estava com a Renata e também sabia da nossa diferença de idade. Preferi não perguntar e mudei de assunto.

O fato é que somente o tempo dirá se eu deveria ter ouvido o conselho dele. Por enquanto já se passaram 7 anos e eu não me arrependi.

Veja > Famosos que foram pais depois dos 60

Pescoço Senil

Em um café da manhã com um grupo de casais, todos na casa dos trinta, exceto eu, é claro, um pouco mais velho, ouvi o relato de uma amiga da Renata, que disse ter se espantado quando se olhou no espelho e constatou que estava ficando velha ao perceber que seu pescoço apresentava traços senis. Ela disse: “estou velha! Olhei-me atentamente no espelho e vi que estou com um pescoço senil.”

Assim que terminou a frase olhei para o pescoço dela para conferir e me deparei com algo cuja textura apresentava características semelhantes às da bunda de um bebê. Pensei: se ela considera aquele pescoço senil e se os presentes se limitaram a rir e não discordaram, o que dirão do meu?

Antes que alguém resolvesse passar os olhos nos demais pescoços à mesa e fizesse constatações e considerações pouco elogiosas em relação ao meu, imediatamente o recolhi em minha camisa.

Levantei os ombros, suspendi a gola do meu casaco, quase enfiando a cabeça nele, agindo como uma tartaruga quando se percebe ameaçada por seu predador, e assim fiquei, por alguns segundos, até que o tema fosse, definitivamente, deixado de lado.

Consegui, portanto, manter fora de evidência e afastado de qualquer possibilidade de observação e julgamentos o meu — este sim, o verdadeiro e inquestionável — pescoço senil, ao qual sou grato, pois, a despeito de abrigar sutis marquinhas do tempo e dois ateromas não obstrutivos de carótidas, vem cumprindo, com elogiável competência, a nobre função de manter unidos meu corpo e minha mente.

Veja > Casal Giramundo: artigos e crônicas